Emílio Rodrigué
1923-2008


Carlos Pinto Corrêa

Velho companheiro.

Era como Rodrigué me chamava em clara alusão às nossas vidas paralelas. Nascemos no mesmo dia: cinco de janeiro, ele mais afoito, dez anos antes de mim: um na Argentina e outro no Brasil, Minas Gerais. Por caminhos diversos, veio a paixão pela psicanálise e quase concomitantemente, aportamos na Bahia, para nos fixarmos exatamente em Ondina. Ele com grande experiência nas lutas institucionais, especialmente no protesto da "Plataforma" e eu, ainda que discretamente, combatendo a IPA como representante e fundador autorizado pelo Círculo, na época entidade formal e ainda muito presa aos valores da Instituição. Assim ele era o revolucionário e eu o conservador.

Nosso primeiro encontro foi promovido por ele, cuja humanidade estava acima de qualquer outra questão. Escreveu-me que era lamentável ser necessário a ocorrência de uma tragédia para criar a oportunidade de nos aproximarmos. Foi a primeira lição que me ensinou.

Rodrigué era um homem simples, extremamente orientado em seu pensamento lúcido e sua presença foi sempre marcante, desde o início, em seus estudos com Melanie Klein, sua presença nos Estados Unidos e sua importante contribuição sobre os grupos sociais e terapêuticos que desenvolveu com Leon Grinberg e Marie Langer. E foi com os grupos que se lançou em Salvador, imprimindo aos seus "laboratórios" uma corajosa experiência clínica.

Se encontrou em Ondina sua nova pátria, encontrou também uma ampla e receptiva família, cujo núcleo inicial foi formado por Urânia Tourinho Peres, Aurélio Souza, Sira Tahin Lopes e outros amigos, além da marca de duas filhas baianas. Penso que obteve reconhecimento de muitas formas, mas coube a Urânia Tourinho Peres estabelecer com rara fidelidade a presença e contribuição de Rodrigué. A edição do livro "Emílio Rodrigué caçador de Labirintos" foi uma marca que o deixou muito feliz. Na sua dedicatória quando me ofereceu o livro, ele escreveu: "A Carlos co-fundador desta coisa", estendendo, com muita honra para mim a transformação de Salvador em um importante pólo do pensamento psicanalítico.

Entre seus trabalhos, sem dúvida o maior investimento foi a proposta de elaborar uma nova biografia de Freud. A primeira vez que conversamos a respeito, acreditava que ele ia se meter em uma missão impossível, já que as vagas de biógrafos de Freud estavam todas preenchidas. Ele me explicou seu intuito, mostrando questões que até então eram desconhecidas na vida do nosso grande mestre. Batizou esta obra como "Sigmund Freud, o Século da Psicanálise". Entendi que era um novo ato de rebeldia deste espírito exemplarmente livre. Esperei com excitação o dia do lançamento que seria um marco para toda a Psicanálise. Cheguei cedo à simpática Livraria da Torre e ficamos conversando sobre o resultado que obtivera nas pesquisas da vida de Freud. Mais tarde chegou a Sira e logo outros convidados, mas nada parecido com a repercussão que imaginara. Nesta ocasião ele me dedicou "O outro pai", voltando mais uma vez à questão de nossa identidade como fundadores e das coincidências de nossas vidas. Deixei o Rio Vermelho com um sentimento de que os colegas não atinaram para a importância do fato. Perdura em mim até hoje a convicção de que esta grande obra de Rodrigué não teve o seu devido valor reconhecido por nós, mesmo estando traduzida para o espanhol, francês e italiano.

Falar de Rodrigué é para mim, falar um pouco de mim mesmo, mas me vergo ante o seu saber. Nossos encontros até raros, mas sempre profundos me marcaram por sua penetrante humanidade, o ouvir e o entender, possibilidades tão superiores aos julgamentos. A interpretação como forma de saber e nunca como arma. Isto ele certamente deve estar discutindo com Platão.